Arqueiro

ORGANISMOS PLURICELULARES/ Galeria KM7

Victor Iervolino

OBJETOS/Casa do Chico

de 17/03/2018 à 29/04/2018


OBJETOS

Victor Iervolino

Como definir as esculturas contemporâneas sabendo que elas mesmas já se colocam como problemas para o crítico-observador? Ontologicamente já não estão próximas das esculturas que a história da arte nos apresentou. Uma alternativa seria olhar para eles e pensar o que são e elas são objetos. A amplitude desse termo permite uma visada mais crítica e atravessada pela compreensão antropológica, sociológica e cultural dos objetos transformados em trabalhos artísticos. Mas essa história é longa – desde Marcel Duchamp até a arte contemporânea, os objetos estão aí, na nossa frente. Lembrando: transformados em objetos artísticos.

É esse o procedimento de Victor Iervolino nessa individual chamada “Objetos”: mais de uma dezena de peças e um vídeo. Apesar de apontar uma orientação – a da recolocação dos objetos em outro meio, adquirindo assim outras funções – chamar de “objetos” sem investigar o procedimento específico de Iervolino é um gesto redundante. Interessante – em objetos como “Um metro quadrado”, “Perpétuo” e “Ralos” – é a encenação de um circuito que não se completa, ou que é disfuncional em seus lugares mesmo de objetos. Mas essa disfunção aponta para um loop que, ao mesmo tempo, que dá um nó em nosso sistema perceptivo também é atravessado pela ironia. Daí, a meu ver, está a crítica – ou curto-circuito – do trabalho dele. Em suas funções de objetos mesmo, já não há virtualmente uma noção de loop – ou economicamente de gastos – uma vez que são objetos quase descartáveis que nós vivemos a comprar e muitas vezes não têm conserto?

Daí o “pulo de gato” do artista: juntar as peças como se as mostrando ao avesso – e chamo de avesso esse gesto mesmo – os objetos ganham uma perspectiva lúdica ou infantil – no sentido de descoberta – e acertam a lógica capitalista deles. Essa interpretação, entre tantas outras, nos faz perguntar: quando caem os “Piões” ou que música tocaria um violão que não pode tocar? Podem dizer, sobretudo a partir de Marcel Duchamp, que a arte é trocar objetos de lugar, é repensar seu uso antes de serem colocados e esquecidos em nossas casas e lugares de trabalhos. Talvez o objetivo de Iervolino seja provocar esse grande riso e de imaginar, assim, outras casas e lugares de trabalho, melhor dizendo, talvez o efeito desejado é imaginar um outro mundo, onde estas funções iniciais sejam deslocadas e como viveríamos nesses espaços habitados por objetos fora de lugar.

Franklin Alves Dassie


Arqueiro e seus organismos pluricelulares

A sobrevivência de um organismo depende
da sobrevivência de um outro.
Charles Darwin

Em sua trajetória de construção de uma pesquisa visual, Arqueiro apresenta um conjunto de trabalho que reforça o caráter investigativo e pesquisador típico de um artista em transformação que busca firmar, menos por convicções lunares, que por engajamento em terreno firme, sua fatura para além da contemplação ingênua de que se trata de um fazedor de artesanias, posto que já se molda em seu pensamento antecipações de novos caminhos em que pode desenvolver sua fatura longe daquele arquétipo.

Há uma teoria, entre outras, que diz que a simbiose entre inúmeros seres unicelulares de uma mesma espécie ou não deu origem aos organismos pluricelulares. Graças a isso experimentamos um desenvolvimento evolutivo sem igual de seres bem mais complexos. Em sua estratégia artística, Arqueiro revela a amplitude desse conceito. Partindo de uma única peça, aparentemente banal, o artista constrói um universo onírico, multifacetado, que vai se expandindo e revelando ao olhar novas dimensões tanto quanto tessituras sutis de camadas e camadas sobrepostas gerando formas intrincadas e surpreendentes.

Em sua mais nova individual que se dá na Galeria KM7 nos deparamos com trabalhos que o artista vem revelando a públicos variados como o seu Oceano Imaginário, uma instalação afetiva, convite a um mergulho ainda mais profundo em nossas reminiscências, as mesmas que vão ficando enterradas no esquecimento, um verdadeiro tesouro submerso no inconsciente. Flor-Beija-flor, uma montagem autorreferente de passagem como se fôssemos levados ao outro nível nas asas firmes e velozes de minúsculos pássaros que nos observam a trajetória. Outras peças impactantes, Ninho (de jacarés) e Cobra Pele, ambas aparentemente nos confrontando com medos reptilianos, mas que, ao contrário, falam de mudanças, da continuidade da vida, de temporalidade. E ainda sua luminárias e telas que compõem todo o seu imaginário sofisticado e sensível.

Ao tocar em temas íntimos tão contundentes, o artista apresenta sua faceta especular em que se vê no lugar do outro e é solidário ao firmar sua imagética na confluência, no aconchego, no jogo lúdico memorial arquitetado em suas peças que remontam ao acolhimento primário, ato constitutivo e determinante de toda e qualquer sociedade que se pretenda coesa em torno de sua diversidade, seja de pessoas, seja de ideias, antenado com a ideia de pluralidade como veio por onde corre a criação. Arqueiro, reconhecendo nossa interdependência, encontra seu espaço na arte com a arte que faz, é o homem que habita o planeta que o recebe e, em retorno, oferece sua visão de mundo com os olhos de um autêntico poeta visual.

Osvaldo Carvalho