INTERVENÇÕES/PRAÇA GETÚLIO VARGAS

Ronald Duarte . Nena Balthar . Marcelo Brantes . Lucia Vignoli . Mariane Monteiro . Cesar Marçal . Carlos Eduardo Borges.

Lançamento do Vídeo/ INTERVENÇÕES-Abraço às Árvores-Praça Getúlio Vargas

de 02 de Junho/2016 à 11 de Setembro/2016


OCUPAR

Roberto Corrêa dos Santos

Por toda parte hoje ecoam atos político-amorosos, sim amorosos, de ocupação de lugares para impedir que tombem seres e coisas que estejam sob algum risco de mortandade, sob algum aspecto submetidos ao cada vez mais comum trato não-ético exercido pela rudeza do violar; trata-se de atos de resistência realizados por um belo mover-se coletivo para estancar a sangria advinda tanto da ignorância acerca das forças vitais a todos necessárias, quanto da ambição aberrante e estranha à vontade humana de manter energizado tudo aquilo que de energia precisa, pois energia oferece; tais atos abarcam modos de agir afirmativos com vistas a ampliarem a delicadeza, o cuidado e a abertura das muitas e muitas coisas preciosas do existir que nos nutrem e nos formam; há tempos, esses fazeres político-amorosos têm seu traçado bem inscrito nas artes plástico-visuais, desde a feitura daqueles inaugurantes espaços não-canônicos (que se recorde da potência dos renegados dos Salões de Arte franceses) até as revoluções provindas de gestos de arte nascidos nas casas (quartos, cozinhas, salas) de artistas (que se recorde de Marcel Broodthaers, de Ives Klein e de tantos) e também pelo ocupar do grandioso com o poder do pequeno e raro cotidiano (recorde-se a Semana de Arte Moderna, de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo) ou, ainda, recorde-se, os sítios utilizados na arte curativa de Lygia Clark. Esses vários e admiráveis empenhos por – ocupando – construir, com simplicidade e com galhardia e fervor, têm sido descritos como alteradores radicais dos movimentos não lineares da História da Arte: rupturas suaves e, contudo, de valor intensivo; e, por força do saudável contágio proveniente do poder criador e cidadão, vêm-se operando, fora do Brasil (1968, em França; as Primaveras árabes e outras) e no Brasil, em ruas, escolas, praças, prédios: o.c.u.p.a.d.o.s. ! Ocupados, e repletos de vitalidade crítica bem visível em obras matéricas: pensamento, arte, política.

Nada tem origem, e sim inícios, começos; jamais se sabe aquele que (e quando se) abriu uma porta e quais os efeitos ao abrir-se; abre-se a porta, aquela, precisamente aquela, a porta capaz de deixar livres as direções do ar e das atmosferas, tendo sempre em acordo o desejo e o acaso; de tal entrega e genealogia, nasceram as artes-obras-ativista, agora no InstitutoKm7, Morada do artista Marcelo Brantes (expondo seu Isto não é um palito de fósforo, mandala de alfaces, transparência etc.) e dos artistas Ronald Duarte, com Nimbo oxalá; Nena Balthar, com Perímetro na praça; Mariane Monteiro, com Árvore dentro do chafariz; Lucia Vignoli, com Ondulacões – rastro e livro e arte; Cesar Marçal, com Intervenção vermelha; Carlos Eduardo Borges, com Bolas de meia. Eles, os Ocupantes, valendo-se de uma espécie artística de pragmatismo sonâmbulo-criador, uniram-se em abraços, festas, piqueniques, ali, na Praça Getúlio Vargas (Nova Friburgo – RJ) e gritaram, com feitos d’arte, gritaram que vivam aos Eucaliptos Centenários trazidos pelo Projeto Paisagístico de Auguste Glaziou e tombado pelo IPHAN: que escapem – gritam – que escapem dessa raiz vis do termo violência, a marcar com sangue frio uma bruta ofensa à condição corpórea e existencial de um ser de natureza, além de histórico e vivente. Eis, pois; eis pois as obras guerreiras, aqui.


CULTIVAR A PRAÇA

Por Alessandro Rifan, 16/Junho/2016

Os espaços públicos são considerados lugares de promoção de saúde, especialmente por proporcionarem vida comunitária a partir das inter-relações sócio-afetivas. As praças como referências desses espaços são centros de convivência por excelência; locais da existência humana de maior diálogo, onde os cidadãos se nutrem das vivências sensoriais a partir das emoções, da afetividade e da criatividade. Praça é sinônimo de liberdade, onde as crianças podem correr sem obstáculos, onde há o lúdico e a arte de rua, onde o coração da cidade pulsa. É ali que nos reunimos, encontramos nossos amores, nos divertimos; onde deixamos de pensar e contemplamos a vida. Foi nesse cenário de convívio social que se iniciou um dos casos mais emblemáticos de cidadania ativa da atualidade no município de Nova Friburgo/RJ, que se formou pela luta cidadã em defesa do mais significativo Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Afetivo do lugar – o CONJUNTO ARQUITETÔNICO E PAISAGÍSTICO DA PRAÇA GETÚLIO VARGAS. A paisagem inventada pelo Mestre Auguste Glaziou no Século XIX, “os conjuntos arbóreos e a fusão das copas dos Eucaliptos centenários (Eucalyptus robusta) tornam a Praça-Catedral como um marco da História do Paisagismo Brasileiro”.

Realizadas de maneira súbita, sem consentimento popular e sem a análise fitopatológica de risco, as derrubadas indiscriminadas dos eucaliptos conduzidas pelo poder público local provocaram uma onda de indignação popular, atingindo a memória afetiva da população, trazendo à tona um embate ativista acerca da violação do Patrimônio tombado e da Cidadania garantida. Diante de tantas evidências de desqualificação técnica, de práticas irregulares denunciadas, da falta de comunicação, transparência e diálogo com a sociedade; do discurso implantado “do medo” e da pressa em derrubá-las a qualquer custo; um grupo de cidadãos resolveu agir. Iniciava-se naquele momento o “MOVIMENTO ABRAÇO ÀS ÁRVORES – SOS PRAÇA GETÚLIO VARGAS” e um “Pacto coletivo em defesa das árvores, da praça, da cidade, de um estilo de vida que busca participação, diálogo, coletividade, solidariedade, e dos direitos e da vida em sociedade”.

Embasados por instrumentos da comunicação popular em rede, através de ações investigativas, contra-argumentos fundamentados e, especialmente por sincronia ideológica de intenções em defesa do local afetado, foi elucidada à proposta de requalificação. Estava exposta a grave denúncia relativa a um projeto que contraria as recomendações sobre a conservação de Jardins Históricos, e tem suas bases nos preceitos privatistas – o da GENTRIFICAÇÃO; no qual projetos urbanísticos invasivos tiram a cidade das mãos dos seus moradores e a colocam a serviço das corporações e do capital. A quem interessaria um projeto de descaracterização baseado num falso histórico, estranhamente avalizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/RJ e pela Fundação D. João VI, onde se pretende a derrubada não apenas de cerca de setenta (70) eucaliptos centenários tombados, mas de todas as cento e oito (108) árvores que compõem a praça?

As ações sociopolíticas e as intervenções culturais, como: as participações nos conselhos, os piqueniques, as rodas de dança, as marchinhas de carnaval, as prosas ideológicas no banco da praça, as oficinas participativas dos “Mapas Falados” e as obras artísticas; sempre nos agregaram e nos fortaleceram para seguir adiante contra o crime que ocorria. Foi necessário resignificar o ato insano e fazer com que a comunidade refletisse a partir da apropriação viva daquele lugar; fazendo com que o espaço a ser defendido como público se mantivesse como “palco aberto e pulsante”. Manifestações, encontros e formações aconteceram. “Praceiros” e parceiros se envolveram profundamente com a causa; historiadores, biólogos, arquitetos, psicólogos, educadores e artistas “cultivaram” a Praça e ajudaram a fortalecer a luta do imaginário através da ação política e cultural. A cidade foi agraciada por artistas e colaboradores de relevância, locais e de fora, que proporcionaram ao público significativas reflexões a partir da arte conceitual e efêmera.

A ARTE SE VALEU PARA DESPERTAR! Tanto foi que o terreno fértil estimulou a formação de outros coletivos, como foi o caso do TRIO GLAZIOU, símbolo do movimento a partir da iniciativa profissional de jovens musicistas. A Arte também se colocou para provocar e fazer pensar. Foi assim o desfecho de incidência política relativa à obra intitulada “horta comunitária”, que de forma inusitada e surpreendente forrou de alfaces orgânicas o canteiro central completamente infértil e destruído pelos impactos das quedas dos eucaliptos. A memória relacionada à tecelagem em Nova Friburgo, a partir dos fios entrelaçados representado pelo tecido vermelho utilizado constantemente pelo movimento, trouxe o sentido relacional de tecer artisticamente o espaço sócio-afetivo. A obra “Nimbo Oxalá”; arte efêmera formada por uma escultura de fumaça, procurou trazer a reflexão sobre o rito espiritual e energético naquele momento, a respeito da resiliência necessária. “Ondulações”; afixada em um dos Eucaliptos da Praça, trouxe a confluência de percepções experimentadas em constantes intercâmbios com a paisagem, a cidade, as pessoas, as músicas, as poesias e os personagens literários. Bolas de tecido, fitas métricas e árvore de papel demarcaram artisticamente o espaço. A ação “Perímetro da Praça” se constituiu pela medição da área descaracterizada, fazendo uma menção aos eucaliptos cortados, e simbolicamente “guardados” em um recipiente de vidro. Bolas de tecido circularam pelo espaço; expostas em elementos que formam o conjunto paisagístico, numa interação reflexiva entre arte-monumento; e a árvore de papel colada ao fundo do chafariz e mergulhada por um longo tempo sob as águas, expôs de forma submersa e subentendida a seu significado crítico.

Assim, dessa forma, hoje estamos reunidos para comemorar e mostrar um pouco de nossa expressão cultural a partir das obras de intervenções artísticas na Galeria KM7; um pouco do que se viu exposto na Praça Getúlio Vargas nos anos de 2015 e 2016. Nessa trajetória foi possível exercitar o ser coletivo, defender o que é nosso e resignificar as perdas através de abordagens sincréticas multiculturais. Foi preciso com ativismo e coragem demonstrar que o atual modelo de governança está na contramão de uma gestão participativa e no risco de tomadas de decisão unilaterais que seguem a lógica da concessão privativa. É preciso desconstruir modelos excludentes, autoritários, e fazer valer a Cidadania vivida, influenciando nas tomadas de decisão, para que elas sejam efetivamente públicas, participativas e assertivas. A Praça Pública e o seu uso coletivo merecem ao invés de um projeto empresarial invasivo e autoritário, uma prática de conservação restaurativa contínua e, um processo sócio-educativo que fomente o exercício democrático. Cultivemos sempre a “PRAÇA LUGAR” sob o ponto de vista do conjunto orgânico: histórico, político, artístico e afetivo; espaço este que se constitui há décadas como símbolo identitário de uma comunidade sociocultural.