O MÓDULO E A ERA DIGITAL/Galeria KM7

Carlos Eduardo Borges . Chang Chi Chai . Edmilson Nunes . Felipe Barbosa . Jarbas Lopes . Jorge Duarte . Lin Lima . Marcos Cardoso . Marcelo Brantes . Rosana Ricalde Sérgio Torres.

de 05 de março/2016 à 09 de Abril/2016


Os trabalhos selecionados para essa mostra correspondem àqueles que motivaram a escrita de um artigo publicado na revista Croma 3, da Universidade de Lisboa. Neste, considero que o módulo, utilizado para a formação de imagens, ocorre desde a consolidação do trabalho de Marcos Cardoso, Jarbas Lopes, Edmilson Nunes, Sérgio Torres, Marcelo Brantes, Chang Chai e do meu próprio até a produção de artistas que apareceram mais tarde, como Felipe Barbosa, Rosana Ricaldi, Lin Lima e alguns outros; deixando, me parece, de ser tão significativo para as gerações posteriores, já habituadas à digitalização. Com efeito, se acompanharmos a produção desta geração, veremos que o surgimento da internet foi o fator preponderante na problematização de suas imagens e na formação de suas imagéticas. Para estabelecer o período no qual essa vertente foi percebida, considero ainda que artistas com formação já completamente consolidada entre os anos 1994 e 2000 não apresentam sinais evidentes dessa influência em sua produção. Jorge Duarte me parece o exemplo paradigmático aqui, pois sofreu praticamente as mesmas influências que os artistas citados, todos com formação ligada à EBA-UFRJ, campo limite dessa pesquisa até o momento. Dessa forma procuro estabelecer que, se na realização de trabalhos com a utilização de pequenos fragmentos, podemos perceber a influência de Lygia Pape, ela não se manifesta em artistas anteriores ou posteriores, embora essa possível indução, ligada a arte neoconcreta, possa estar presente de outras formas. Considero também que esse envolvimento do módulo nas diversas problematizações das pesquisas, que relaciono com a transição ocorrida nas imagens e nas fotos do início da era digital, poderia ser estendido para muito além desses limites e ser tornar um instrumento útil para outras reflexões e estudos futuros.

Carlos Eduardo Borges


Do Modulor ao módulo

Seria digno de nota o lugar que o princípio modular ocupa numa linha de contato entre a arte moderna e a contemporânea. Afinal, ele inaugura uma estratégia a um só tempo radical e traumática nos processos artísticos: por um lado, ele dessublima o mito da operação artística, pois que, baseado na repetição, nega o gesto criador único e especial. Dito de outro modo, o labor do artista é deslocado para a esfera das operações comuns, ainda que resista ao que elas poderiam ter de alienante. Por outro lado, a repetição também implicaria um lapso, uma enigmática descontinuidade, naquilo em que ela provoca um distúrbio narrativo e faz com que a estrutura de sequência possa assinalar uma sequela: há uma passagem famosa em Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci, de Freud, em que ele toma uma repetição aparentemente acidental como o momento em que um evento de uma experiência reprimida se descortina; mas se quisermos nos ater ao "inquietante" deflagrado pela repetição na arte, basta-nos a lembrança de um trecho do Ballet Mécanique, de Léger (na cena em que uma lavadeira sobe uma ladeira) ou ainda da serialidade em Warhol, tal como tratada por Hal Foster em seu célebre ensaio O retorno do real. O problema reside no quanto emerge pela repetição o evento do estranhamento. Estranhamento este, se insistirmos no caso da arte, no qual entrava em jogo o temor de admitir em sua existência processos industriais, automáticos, mecânicos - em uma palavra, alienantes.

Os construtivistas logo perceberam isso e debruçaram-se em definir uma plataforma para tais operações. A repetição modulada era, portanto, uma prática definida com nitidez, permitindo não apenas o surgimento da forma por um método moderno, mas também anti-subjetivista, reprodutível e, acima de tudo, vinculado à escala humana. Ainda que Le Corbusier estivesse longe de ser um construtivista, ele percebeu isso claramente quando da criação do modulor - um novo sistema de escala e proporção entre o indivíduo e a arquitetura. Importa para nós nesse contexto, perceber que o módulo estabelece uma nova equação da forma que, apesar de diferenças e particularidades que omito aqui, ainda ecoaria na máxima de "uma coisa depois da outra" do minimalismo.

Passado esse preâmbulo, há três questões a examinarmos, tendo em mente os trabalhos reunidos nesta mostra: como podemos, diante de uma problemática como a exposta acima, refletir sobre a potência (ou plausibilidade) do módulo na arte contemporânea, visto que seu comprometimento com a forma parece se caracterizar como algo tipicamente moderno? Teria essa questão, suposta uma particularidade do contexto brasileiro, assumido um sentido outro e próprio? E, por fim, um tópico lançado no âmbito da exposição: há uma diferença entre a repetição do módulo e as práticas de reprodução digital?

Comecemos pelo primeiro ponto: o complexo módulo-repetição se desenvolve em algumas poéticas contemporâneas como uma operação de apropriação de estratégias dadá e pop. Não se trata de emulá-las, mas de repensar e entender a validade de alguns dispositivos historicamente constituídos como capazes de discutir o lugar do "pós"-moderno como algo mais intrincado do que uma mera superação ou um novo zerar (ingênuo, desta vez) do cronômetro da arte. Postas as coisas de outra maneira, trata-se de inquirir o que é tensionar operações da morte da arte na era da nova reificação de subjetividades de narrativas anti-memoriais (por mais que algumas das abordagens contemporâneas - ou pseudo-contemporâneas - simulem o contrário). Visto sob este ângulo, a serialidade incide também sobre outra questão, quando pensada a luz do minimalismo, da pop e de algumas investidas conceituais: talvez, malgrado as expectativas, a arte contemporânea já pertence a uma parcela histórica, e é o caso de acionar qual a natureza destes termos. Especificando-os: há uma repetição/modulação moderna, uma pós-moderna e outra, digamos, pós-contemporânea (que se vale das duas anteriores). Fica em aberto para nós perquirir a que campo esta última tem respondido nos últimos anos.

Quanto ao segundo ponto: sem recair em um argumento pós-colonialista, o fato é que o mito industrial do módulo-repetição -progresso característico da modernidade aqui teve a sua presença mítica mais efetiva do que concreta. Sem querer persistir no elogio atrasado da "precariedade" (tão caro a nossa cordialidade subdesenvolvida em décadas recentes), há, positivamente, o interesse nessa desafiante incompatibilidade de coisas que passaram por aqui muito rapidamente: a "utopia" iluminista do racionalismo progressista - prevalecente mais como discurso do que como prática - e a adoção de um procedimento industrial da forma em uma sociedade que manteve vivos traços para-industriais (diria que foi nosso - valoroso e cativante - "concretismo de barbante"... e velaturas). O módulo e a repetição não deixam de ser, portanto, operações iconoclastas e provocantes, no que adotam sistemas formais que para um modernista clássico seriam incompatíveis e antitéticos. O fato é que, sem exagero, a sobreposição de uma lógica industrial a operações de modulação empíricas e "improvisadas" exponenciariam o dilema da forma na cultura visual brasileira.

Resta-nos o terceiro ponto: o quê categoricamente distinguiria o módulo das repetições da reprodutibilidade digital? Concordo com Carlos Borges quando ele aponta um aspecto geracional no entendimento das operações seriais. Acrescentaria que a isso agrega-se uma questão de fisicalidade: os artistas aqui agrupados entrelaçam a questão do módulo àquela de uma plasticidade objetual (isto é, a forma decorre de um somatório de partes que são entidades físicas e lidam com um espaço corpóreo, atento a escala humana), enquanto os processos digitais enfatizam uma perda de corporeidade na imagem. Não se trata de escolher entre uma e outra, e sim de compreender que a canônica "reprodutibilidade técnica" de Walter Benjamin nos anos 1920 não pode mais ser tomada como uma profecia ou dar conta dessa outra escala ou ordem produtiva em jogo atualmente. Diria, por fim - sem imaginar a conclusão a que tal afirmação pode (ou não) levar - é que o elemento a separar o módulo dos processos numéricos mostra-se essencialmente como uma escolha entre uma atitude histórica ou pós-histórica perante os dilemas da arte. Não compete, a rigor, escolher uma ou outra, mas não ser ingênuo perante o que ambas nos desafiam.

Guilherme Bueno