Maria Amélia Curvello - SOLAR/ Galeria KM7

Curadoria Ronald Duarte

Nena Balthar - DESÍGNIO DESENHO/Casa do Chico

Curadoria Ludmilla Fonseca

de 19 de Maio/2019 à 18 de Junho/2019

Solar
Maria Amélia Curvello

Iluminadas são suas pinturas; o amarelo que ascende transbordando cor-luz ao ambiente. O sensível elevado a máxima potência e a busca incessante dos espaços laterais, das camadas do tempo, onde suas histórias e estórias se entrelaçam com o amalgama da memória. Ao mesmo tempo em que observa o tempo agora, se mistura no tempo de outrora, São olhares e lembranças que debruçadas sobre um horizonte longínquo nos revela as imagens curiosas de um dia a dia comum e simples.

Suas pinturas falam de um cotidiano: do jardineiro, da mulher lavando a calçada ou simplesmente de um dia de ações banais da esquina de um lugar conhecido, o mais próximo daqui. De uma simplicidade estampada em seu gesto em que trata o ato de pintar, de adicionar cor ou acrescentar luz, tateando com o pincel como se reconhecesse a necessidade da superfície da tela ou a sensibilidade da retina dos seus próprios olhos.

Suas lembranças estão à proximidade das mãos como se pudéssemos acessá-las sem constrangimento algum, volta-se no tempo e revisitam-se momentos da vida vivenciada com o maior carinho e suavidade, memórias de puro afeto que contribuem para a construção e elaboração das obras aqui apresentadas.

Essa mistura de arte e vida, da materialização espacial à fatura da pintura acontece nas telas de Maria Amélia Curvello; primeiro em seus estudos em aquarelas que são verdadeiras pérolas intimas que estarão expostas junto com as pinturas que são frutos dessa busca por um sentimento desconhecido que vai se construindo no ato insistente e trabalhoso de pintar. Sim, é muito trabalho, muito tempo e muita dedicação que são depositados na trajetória dessa pintora que estuda e pensa sua arte, uma operária do seu atelier.

Ronald Duarte
Artista-Curador


Nena Balthar
DESÍGNIO DESENHO

Desígnio Desenho é composta por sete obras em um arco temporal que vai de 2010, iniciando com “Camadas”, até a série inédita “Iperana”, concluída recentemente. A carreira de Nena Balthar é muito mais longa e profícua, porém a oportunidade de reunir uma década de trabalho, há de ser devidamente celebrada. E, sendo assim, o título da exposição não poderia ser mais apropriado: o desenho é, inegavelmente, o desígnio dessa artista. A técnica em que as obras são apresentadas (vídeo, fotografia, instalação, performance ou papel) não deve enganar: “é tudo desenho”. Inclusive, este é o nome de uma de suas individuais, realizada em 2011. O desenho é seu propósito, vontade, destino. Por conseguinte, sua prática artística é uma experiência corporal, espacial e temporal: Nena desenha quando escreve, quando mergulha, quando fotografa... Se “é tudo superfície”, qual a diferença entre o papel e a paisagem?

Não por acaso, a exposição começa com “Perímetro na Praça” (2015), performance realizada, justamente, em Nova Friburgo. Diante do olhar alheio, Nena percorre toda a circunferência do local, demarcando seu perímetro com um rolo de papel. A praça se distingue de outros espaços urbanos (que são expansões acidentais, desorganizadas, orgânicas das cidades) pela sua organização espacial e intencionalidade do seu desenho: a praça é pensada para ser uma demarcação do vazio em meio à malha urbana se configurando como o lugar intencional do encontro. A performance destaca esse perímetro, fazendo imergir noções socioespaciais e um tensionamento entre o projeto urbanístico (desenho técnico em escala) e o uso público do espaço demarcado (o desenho performático do corpo que percorre o perímetro). A ação ocorreu no âmbito de uma manifestação artística contra a retirada das árvores da praça.

Já “Camadas” é um desenho instalativo. A artista faz linhas verticais em grafite em toda a extensão da parede. As linhas são da amplitude que os braços de Nena alcançam e são feitas repetidamente até que o corpo chegue à exaustão. O registro em vídeo desta ação é projetado sobre o desenho com certo deslocamento, formando um ângulo com a parede lateral (que não foi desenhada). Assim, ela torna o desenhar uma ação visível, tão importante quanto o seu resultado: a coreografia do gesto é indissociável do desenho que se forma. Sendo assim e de certa maneira, a artista subverte o que diz Derrida em Pensar em não ver: escritos sobre as artes do visível (2012): “em todo desenho digno desse nome, naquilo que faz o traçamento de um desenho, um movimento resta absolutamente secreto, isto é, separado (se cernere, secretum), irredutível à visibilidade diurna”.

Por sua vez, a série “Iperana” é composta por 12 desenhos em papel. Iperana é uma árvore, cujo nome em tupi-guarani significa literalmente: “semelhante ao ipê”. Nena recolheu alguns de seus frutos, que mais se parecem sementes, em uma viagem à Amazônia e integrou o material orgânico à sua prática de desenho. Assim, o fruto é usado sob o papel como molde, carimbo, “carbono”, registrando sua forma, peso e textura. Dessa maneira, a dimensão de “semelhança” que a árvore carrega na etimologia de seu nome é ampliada: aquilo que se vê nos desenhos é semelhante àquilo que se vê na natureza sem que haja qualquer intenção e/ou resultado figurativo ou paisagístico.

Não obstante, a partir desta série, é possível destacar um conceito recorrente na produção de Nena: a exploração da linha do horizonte. Ela não o faz do ponto de vista técnico para a manutenção da perspectiva clássica; pelo contrário: a linha do horizonte é tomada enquanto pensamento criador de uma percepção poética diante das imagens do mundo - é para onde o corpo avança. Por outro lado, os desenhos de “Iperana” trazem um dado inusitado: o uso da cor. Majoritariamente trabalhando com o preto do grafite e branco das superfícies, a artista utiliza, ainda que pontualmente, o vermelho. A cor tem certo efeito de sobreposição, apontando para as camadas e relevos dos trabalhos.

Ainda refletindo sobre o preto e o branco, “Porção escura” (2012) é um livro de artista apresentado sobre uma mesa que aborda conceitualmente a transição do claro para o escuro. O trabalho só se realiza a partir da manipulação do público: o gesto de folhear as páginas permite a criação de novas composições à medida que se vai escurecendo o branco e clareando o preto, num jogo entre esvaziamento e totalidade. Isto posto, o público consegue compartilhar com a artista a experiência da criação do desenho.

A questão do horizonte aparece também nas fotografias que compõem “Linha D’água” (2015) e no vídeo “Desenho.Modo.Águas” (2012-2019). Aqui, toma-se os braços pelas mãos: são eles que desenham, riscam, abrem a paisagem. A ação performática nos convida a assumir o ponto-de-vista da nadadora em que uma “linha ondulada” e distorcida separa o horizonte terreno do aquático. O som da respiração e o baralho da água ampliam a dimensão sensorial deste desenho cartográfico. Portanto, é possível pensar que Nena opera também com a noção contemporânea de desenho no campo ampliado.

A exposição se encerra com “Vocábulo Desenho” (2013), obra na qual a artista desenha o texto “Operando Gestos” de Roberto Corrêa em uma longuíssima extensão de papel. Pensar o texto como desenho é compreendê-lo antes do processo racional, lógico (que é marcado por um modelo logocêntrico e fonocêntrico). Assim, o desenho do texto é aquilo que não se pode prever: é a experiência do gesto enquanto ele se dá. Ao final da ação, persiste o desenho incorporado de uma subjetividade do corpo e de uma ampla percepção formal. Dessa maneira, a proposição da artista vai de encontro ao famoso comentário de Richard Serra: "qualquer coisa que você possa projetar como expressiva em termos de desenho - ideias, metáforas, emoções, estruturas de linguagem - resulta do ato de fazer" (em Escritos e entrevistas, 1967-2013 publicado em 2014). Em outras palavras, o gesto de fazer uma marca se tornou o conteúdo do desenho, fazendo suas acepções gráficas e conceituais se fundirem.

Desígnio Desenho é um pequeno panorama da produção de Nena Balthar, que deixa evidente a opção da artista por apresentar um vocabulário visual que é, ao mesmo tempo, sem afetações formais, mas surpreendente em relação aos conceitos operacionais e seus suportes/técnicas, nos fazendo repensar as convenções acerca do que pode ser o desenho. Nena está interessada nas interseções da linguagem com o espaço e o tempo, desenvolvendo um pensamento acerca da corporalidade inerente ao ato de desenhar. A artista define bem o que faz: “desenho performático” – trata-se da grafia do corpo, um modo particular de arte e vida.

Ludimilla Fonseca